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A Gotinha Que Queria Ter Cor
Eu era um menino de sete anos quando vi minha primeira peça de teatro. "A Gotinha que Queria Ter Cor". Era a história de uma gotinha de água que chovia do céu e caia na horta. E ela não se conformava em ser transparente e translúcida. Queria ter cor. Queria ter cor como a alface, como a cenoura, o tomate e todos os outros personagens.
Eu estava encantado com tudo aquilo, afinal era a primeira vez. O teatro. Mas por acaso ou não, não consegui ver o fim da peça. Numa certa cena um dos atores jogava bolinhas de papel na platéia. Pronto. Foi o fim da peça. As crianças gastaram as folhas de seus cadernos do semestre inteiro contra-atracando o ator, e as bolinhas de papel foram tantas que os atores não conseguiram continuar a peça. Não fiquei sabendo como acabava a história da gota d'água que queria ser colorida.
Nunca assisti o fim da minha primeira peça de teatro. Não vi o fim. Mas foi o início de um novo horizonte. A partir daí fiz algumas pecinhas na escola, depois num grupinho amador aqui, num cursinho ali fui me interessando pela arte de atuar. Pronto! Queria ser ator. - Tá bom menino! Dizia minha mãe e passava a mão na minha cabeça.
Nessa época eu morava na minha cidade lá em Minas Gerais, Governador Valadares, famosa por exportar brasileiro para os EUA. Lá tinha um teatro, Teatro Atiaia, mas não acontecia muita coisa lá. E na época na cidade tinha nenhuma opção de curso, escola ou algo assim (e acho que continua não tendo). Um dia prestes a completar meus dezenove anos também quis sair. Mas não para Massachusetts.
- Vou pra São Paulo estudar teatro!
E assim foi. Duas semanas depois eu estava em São Paulo. Nunca havia posto o pé aqui antes. Não sei por que o destino quis que fosse assim. Não foi uma decisão pensada, até porque aos dezenove não pensava seriamente ainda. Apenas uma decisão que devia ser tomada. Assim na loucura e no impulso. Me mudar pra mudar. E sozinho eu me mudei pra São Paulo. E há oito anos moro em São Paulo. Cheguei, trabalhei, dei um duro do cão (isso tudo eu conto outra hora), mas estudei, me formei e me tornei um ator. E assim trabalho como ator profissional desde 2004.
Engraçado. Consegui o que tanto queria. E hoje me lembrei dessa peça infantil. Ainda continuo não sabendo o final da peça. Continuo não sabendo se a gotinha conseguirá ter alguma cor. Ou se terá que se conformar em ser gota que é o que ela é. Engraçado não saber o fim da história. Engraçado e trágico. Nunca saberei. Nunca saberemos.
Então resolvi escrever o meu final pra peça:
E a gotinha ficou triste e se sentou ao sol. E nem se dou conta que logo havia evaporado. E ela viu o mundo como apenas uma gota pode ver. E quando ela voltou para as nuvens os ventos a sopraram pra longe. E quando ela choveu novamente ela se tornou um arco-íris.
 Foto: André Porto
Escrito por Laerte Késsimos às 16h35
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