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A Cléo Na Revista
01/06/2008
Uma caipira da metrópole por Cléo De Páris
Eu vinha pra São Paulo passar as férias desde os oito anos, mais ou menos. Tinha tios que moravam aqui, adorava eles. Ficava num apartamento na Vila Mariana, tinha um playground bem pequenininho. Ganhei uma camiseta do Corinthians. Dormia num beliche e ficava na janela, ao entardecer, olhando o infinito de prédios. Sentia paz.
Eu era bichinho do mato. Brincava na terra, tomava banho de mangueira, fazia piquenique na beira do rio, pegava bergamota no pé, fugia de cobra, tinha medo de lobisomem. Meu pai matava porco para fazer salame. Na chácara da minha vó, usava penico, o "banheiro" era lá fora, uma casinha com um buraco, a TV era em preto-e-branco, e colocavam um celofane azul ou vermelho ou amarelo, nunca entendi a razão. Eu dormia muito lá, brincava no mato, na plantação de oliveiras do meu avô. Tinha um tonel com azeitonas no galpão, enfiava a mão suja, pegava um punhado e comia. Brincava de namorado e beijava as árvores com ardor, deixando marcas de batom.
Quando me machucava, a vó rasgava um pedaço de lençol velho, colocava banha no corte e fazia um lacinho de flores, era bonito e dava pena de sarar... Ela também fazia pão assado num forno de barro, fora de casa. Nunca comi outro pão igual, meu sabor mais saudoso.
O lanche da tarde era esse pão com chimia de uva e nata ou molho do almoço. A água vinha da fonte, o leite vinha da vaca. Quando tinha temporal, ela acendia vela benta e a cada trovão a gente falava três vezes: "Santa Bárbara, são Jerônimo". Só nesses dias o mundo fazia barulho.
Então, eu vinha pra São Paulo nas férias! Viajava 15 horas de ônibus, pegava metrô, subia e descia escadas rolantes, tinha que esperar o sinal verde pra atravessar a rua, pegava elevador, comia pizza e sorria para as pessoas. Elas também sorriam muito pra mim! Assim que chegava na rodoviária, começava a contar o tempo pra chegar a hora do meu passeio predileto: ir ao Terraço Itália tomar um sorvete de chocolate! Meu pai sempre me levava. Era sempre igual: a gente pedia o sorvete, sentava e ficava em silêncio, olhando para o infinito de edifícios. Eu ficava imaginando cada pessoa em cada janela e pensando qual janela seria minha um dia. Eu sabia que era aqui o meu lugar.
Agora, eu vou passar férias em Barão de Cotegipe! Meu quarto, minhas bonecas, as fotos, os segredos estão todos lá. As vizinhas da minha mãe querem me ver, dizem que estou cada vez mais linda e não entendem como posso morar numa cidade tão grande. Minha mãe faz polenta com galinha que ela mesma cria, meu pai faz salame e vinho.
Converso e me divirto com meu irmão, madrugadas a fio, ouvindo os grilos no jardim. Visito meu avô, sozinho, feliz por me ver, com lágrimas nos olhos e cheio de histórias antigas que gosta de contar pra mim. Volto pra São Paulo com seus cheiros, seus dons, seus ranços, suas manhas e sua loucura. Um abismo, meu palco de concreto que posso amar. Que amo.
Eu sinto paz. Eu sempre volto feliz pro meu lugar.
Cléo De Páris, 36, atriz, é a colunista convidada desta edição. Trabalhou nas peças "A Vida na Praça Roosevelt" e "Inocência", ambas do grupo Os Satyros.
Escrito por Laerte Késsimos às 14h23
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