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texto do blog Cacilda
“A Fauna” é o espetáculo de que mais gostei dos Satyros, à primeira vista, em quase duas décadas. Fazia tempo que eu e a Lê falávamos de ir à favela Pantanal, onde Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral têm um projeto de anos, até já combinamos com os dois.
Mas foi só na periferia de Curitiba, hoje agigantada ela também, muito diferente da cidade dada como modelo quando o festival começou, que pudemos vislumbrar o que a dupla busca, para além da praça Roosevelt e da Vila Madalena. No caso, por sugestão de Leandro Knopfholz.
A minha experiência, naquele lusco-fusco entre urbano e rural, foi de uma festa barroca, uma via meio sacra, meio profana, entre as alegorias do Brasil da miséria e da urbanidade.
O primeiro quadro trazia Ivam falando de si mesmo _e errando gloriosamente o texto_ seguido por uma criança toda de branco, a recitar. E foi num teatro de fato, palco, platéia, mais o entorno de escola, futebol.
Já a caminho, levados por um líder comunitário, vimos rappers dali mesmo, jovens, e uma cena sobre maternidade adolescente, em plena sala de aula, com atrizes saídos da comunidade. Caso de Célia Aparecida Mattos, que “não vive sem ler” e cujo “maior sonho é escrever um livro”.
Daí para as ruas e pequenas casas, a começar da tragédia _e da presença, com triste canto_ de uma personagem local, a Índia. Depois outra casa, uma cooperativa de costureiras antes depressivas, o depoimento/cena de uma grávida menor de idade, as crianças num carro depenado.
Nos quadros costurados pelos Satyros, alguns com atores da companhia mesclados aos artistas encontrados na Vila Verde, foi a realidade que emoldurou com fascínio todo o caminho. Não faltou tensão.
A certa altura, um SUV com quatro jovens negros parou ao lado do público ambulante, “rap” em alto volume, braços de fora, como se saídos de algum filme americano ou capa de CD dos Racionais. Noutro momento, passamos todos, cercados por crianças em festa, diante da sede dos Alcoólicos Anônimos.
Com peso inescapável, um templo neopentecostal, de uma igreja de nome comprido que eu não conhecia nem memorizei, fazia contraste com a obra inacabada de uma grande igreja católica, bem no coração da comunidade. Da procissão teatral, cruzamos olhares com o pastor e depois com o padre, tão semelhantes.
A festa vai até o fim de semana e não deve se repetir em lugar nenhum. É única.
Escrito por Nelson de Sá às 12h02
Escrito por Laerte Késsimos às 13h40
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