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Crítica/"Vestido de Noiva"
Satyros renovam teatro rodrigueano em montagem lúdica
Elegante e auto-irônica, Norma Bengell é destaque do elenco; excessos pontuais não prejudicam resultado final
SÉRGIO SALVIA COELHO CRÍTICO DA FOLHA
"Vestido de Noiva", relido pela Companhia Os Satyros, não é um espetáculo sem defeitos. Seu elenco é desigual e sua encenação peca por excesso de idéias que, às vezes, dão um tom descabelado de show de variedades -efeitos que fazem sorrir por um minuto, em sucessão vertiginosa e sem muita consistência. E no entanto, essa sem-cerimônia faz com que o grupo prove dois pontos essenciais, que podem se tornar um divisor de águas no teatro brasileiro. O primeiro é que é possível se fazer uma leitura que, sem desrespeitar o universo rodrigueano, livre-se de uma referência obrigatória à encenação de Ziembinski. O fato é curioso, já que a origem do projeto, pelo Itaú Cultural, foi o de justamente homenagear os três planos (memória, fantasia, realidade) da montagem histórica com uma leitura quase improvisada pelo grupo, meses atrás. O resultado agradou tanto que rendeu um convite de Milú Villela para inaugurar teatralmente o seu espaço na avenida Paulista. Por conta disso, as longas filas que costumavam se formar em frente ao teatro Popular do Sesi agora mudaram de endereço. Duplo lucro: teatro de qualidade aberto ao público, e a prova definitiva de que Os Satyros não dependem de seu feudo na Praça Roosevelt para funcionar. A falta de recursos, para nenhum grupo aliás, é ponto de honra, e se espera que a iniciativa de Villela de misturar guetos seja seguida por outros empresários de visão. Livres do ensimesmamento das suas últimas encenações auto-referenciais, mas sem se intimidar por medir forças com uma encenação consagrada, o grupo demole tabus sem fazer alarde. Não fazem falta os planos: a história se passar toda dentro da cabeça da protagonista Alaíde apenas faz com que "Vestido de Noiva" fique mais próximo de "Valsa nº 6". Ao mesmo tempo mais expressionista e mais pueril, "Hamlet" de Craig e "Alice no País das Maravilhas", "Vestido de Noiva" sai do museu -e já era hora. O outro grande ponto demonstrado é que Norma Bengell, ao contrário do que tinha se murmurado maldosamente, vai muito bem, obrigado, e segue sendo uma das melhores atrizes do país. Fundamental para a referência multimídia do diretor Rodolfo García ao glamour do cinema, tornando plausível uma divertida metalinguagem com trechos da peça projetadas em forma de filme (com legendas em inglês), Bengell sabe se manter a musa de voz melodiosa e precisa, dos gestos elegantes, do enorme encanto pessoal. E sabe também saltar fora disso, com uma auto-ironia de criança. A puerilidade assumida pela encenação faz com que o mergulho em Nelson seja tão atraente como uma vitrine na rua São Caetano. Claro que haverá outras com profundidades diferentes. Mas talvez nenhuma com tanto prazer de estar vivo -tema fundamental, talvez, de "Vestido de Noiva".
VESTIDO DE NOIVA Quando: hoje, às 19h30 e 21h30; amanhã, às 17h30 e 19h30; até amanhã Onde: Itaú Cultural (av. Paulista, 149, Bela Vista, tel. 0/xx/11 2168-1776) Quanto: grátis Avaliação: bom
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