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Não Ficção
Era aproximadamente duas horas da manhã. Tinha bebido um pouco e estava chegando em casa voltando da festa do Prêmio Shell quando cruzo com um garoto. Quase na porta do meu prédio. Um meino magro, aparentava no máximo uns quinze anos, de bermuda, chinelos de dedo e camiseta. Mirradinho. Quando eu estou abrindo a porta do prédio percebo que ele ficou ali parado. No exato lugar onde nos cruzamos. Tenho o impeto de entrar, mas volto o olhar e o vejo ali. Parado na noite. Volto e me viro para ele. Ele se aproxima timidamente. Como um animal desconfiado. Eu lhe pergunto:
- O que foi? - Ia te pedir cinquenta centavos pra comer um negócio. - Você ta com fome? - Estou. - Como você se chama? - Kleber.
E ele fica ali na minha fente parado com aqueles olhos estatelados. Eu vasculho a minha cabeça. Tentando lembrar o que havia de comer em casa. Continuo:
- Quantos anos você tem? - Dessesete.
Aquele momento se alonga nos meus olhos e nos olhos dele. Sem vida alguma. Opacos.
- Quer comer um miojo? - Claro.
Ele responde sem alegria. Eu convido ele pra subir. Peço que se sente na cozinha enquanto preparo um miojo. Um ovo. Um copo de refrigerante. Não tinha muita comida em casa.Tento conversar um pouco. Descubro que ele mora com a mãe desempregada, e dois irmãos mais novos. Estuda a oitava série. Com dessesete anos. A oitava série. E que estava na rua tentando arrumar algum dinheiro. Miojo pronto. - Cuidado está quente. Ele não se importa muito come rápido. Seus olhos opacos ganham alguma vida. Dou pra ele um chocolate que tinha em casa. De repente me dou conta da situação em que me meti. Mas ele é apenas um garoto com fome. Ele acaba de comer. Um longo silêncio. Ele pergunta se pode fumar um cigarro. Eu faço que sim com a cabeça. Quase nem consigo falar. Ele fuma seu cigarro calado e quando termina agradece:
- Deus abençoe. Eu vou indo... - Eu vou abrir a porta pra você.
Eu o levo até a saida. Ele agradece novamente e se dispede com um aceno. Eu não consigo olha-lo indo embora. Fecho a porta e me tranco na minha segurança. Subo até meu apartamento e deito minha cabeça no meu travesseiro. Fico pensando na noite lá fora. E no Kleber. E em todas as coisas que ainda estão por vir.
Escrito por Laerte Késsimos às 11h02
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