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Sob a goiabeira

Quando ele voltou alguém estava sentado do lado de fora sem roupa tomando um pouco de sol.
- Tem café.
Alguém lhe disse com uma xícara nas mãos. Ele tirou suas roupas ali na cozinha mesmo. Abriu o armário. Pegou uma xícara. Serviu-se e foi olhar pela porta da cozinha que dava para o quintal. Imediatamente alguém largou a xícara de lado, correu e subiu numa das árvores - goiabeiras enormes - como de costume. Ele só ficava olhando e tomando o café. Alguém subia bem alto. Chegava a sumir na copa da árvore.
Ele sentou-se perto da porta. Alguém podia vê-lo de cima da árvore deitado num tronco mais forte. Mas ele não podia ver alguém. Só ficava imaginado. Ficaram assim por uns 40 minutos. Aquela hora, com o dia apenas começando o calor do sol era como um carinho de um amigo perdido. Ou um carinho perdido de um amigo próximo.
Alguém desceu da árvore e se deitou no chão de folhas secas do quintal. Sob a goiabeira. Ele pegou a xícara em que alguém bebeu café, que ficou ali perto da porta, e a outra em que ele próprio tinha bebido seu café. Voltou pra cozinha e lavou as xícaras. Sentou-se e acendeu um. Depois de um tempo acendeu outro e foi deitar-se sob a goiabeira ao lado de alguém. Com um gesto da mão e dos dedos alguém pede a ele para fumar. E alguém fuma. Fuma assim se mexendo um pouco no chão e quebrando o silêncio vago com o barulho das folhas secas sendo amassadas. Ele gosta. Será que alguém percebe o barulho assim como ele? Será que alguém também gosta? Ou será que ele amassa as folhas sem nem mesmo perceber? Ele fica quietinho. Quase nem respira. Fica ouvindo obarulho que alguém faz se nem perceber. Amassando as folhas secas. Bem devagar.
Depois o silêncio de novo. Ele se mexe para amassar algumas folhas mas o som dele não é como o que alguém fazia quando amassava as folhas. Depois acho que alguém dormiu. Talvez ele tenha dormido também. Talvez tenha ficado acordado.
Ele se assusta quando alguém se levanta rápidamente. Alguém volta para a cozinha. Ele se levanta e também volta. Agora o sol já não é mais um carinho. Agora ele arde. Como um beijo de um amante apaixonado que se foi. Ou como o não-beijo de uma paixão não amada mas presente.
Ele procura alguem pela casa. Assim vagamente. Como se não quisesse encontrar e por fim se deita na cama. Nos lençois brancos. O silêncio devasta da casa. Pode-se ouvir pensamentos como vozes loucas vagando pela casa. Tentando entrar num acordo. Tentando criar uma tese para ele mesmo. Tentando encontrar o motivo ou a razão sem saber o resultado.
Depois o corpo de alguém sobre o dele. Depois o prazer. Como uma folha amassada. Quebrada. Depois a tarde e a fome. Depois a noite e depois uma nova manha que ele espera que também fosse uma mamhã de sol. E que alguém novamente pudesse subir na árvore pra tomar sol. E pra depois ele ouvir novamente sob a goiabeira o som das folhas sendo amassadas. E o silêncio.
Escrito por Laerte Késsimos às 09h48
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Mas o que sinto é cansaço
Eu to cansado dos finais felizes, dos beijos na boca, dos acertos, dos melhores amigos, das boas intenções, da sua beleza, da perfeição da sua vida. Eu to cansado de ter controle, dos bons, dos convites pra almoçar sem terceiras intenções, das noites quentes e das frias também. Eu to cansado de ficar esperando sei lá o que, que não vem nunca. Eu to cansado de mim, de você, da felicidade. Eu to cansado. Eu to muito cansado. Eu fico pensando na vida, em como ela se apresenta pra mim. Fico pensando nos amigos. E nos melhores amigos. Fico pensando no amor e no sexo e tudo isso me parece estranho agora. Mas o que sinto é cansaço.
Escrito por Laerte Késsimos às 14h14
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