Se tivessem me contado, talvez eu não acreditasse. Ontem à noite. Quinta cena de “Inocência”. Uma cena crucial. Um ponto de ônibus. Fadoul (Ivam Cabral), o imigrante, um dos protagonistas da história, vai conhecer a stripper cega, Absoluta (Cléo de Paris) ao mesmo tempo em que acha uma bolsa sob o banco do ponto de ônibus com uma pequena fortuna, “duzentos mil dinheiros”. O diálogo entre Fadoul e Absoluta é um dos pontos-chave da peça, tocando na questão das diferenças e desconfianças, que está no cerne da preocupação da dramaturga Dea Loher. Então, voltando, ontem à noite. Quinta cena de “Inocência”. Tudo corre bem. O espetáculo está pleno de tônus, caminha vigoroso. A platéia, que lota a sala (muita gente sentada no chão), reage com prazer e intensa adesão ao trabalho da companhia.
De repente ouvimos Ivam dizer “Precisamos urgentemente de uma escada”. A fala não consta do texto. O elenco que estava nos bastidores fica pasmo. Vamos espiar pelo fundo do palco. Descobrimos que uma das três cortinas transparentes do cenário, que são fundamentais para a estética da encenação, está no chão. Rompeu-se o cabo de aço que a sustentava. A cena seguinte à do ponto de ônibus não poderia ser feita sem aquela cortina. Nem a cena subseqüente. As cortinas são usadas para projeções de imagens de vídeo e de retro.
Ivam, sem interromper a cena e sem quebrar o foco da personagem, sobe a escada e começa a tentar consertar o fio. Cléo de Paris não perde o pique e dá a réplica. Algumas figuras imóveis participam da cena, interpretandopessoas à espera do ônibus. Laerte Késsimos, que não atua nesta cena, entra no palco. Coloca-se junto da fila do ponto. Depois vai até a escada. Ivam Cabral desce e segue com a cena. Laerte sobe até o topo da escada e de algum modo consegue prender precariamente a cortina. Tudo no exato tempo de duração da cena. Nem uma fala e nem uma intenção das atuações de Ivam e de Cléo foi perdida. A cortina não ficou ideal. Permaneceu meio bamba, oscilante. Mas o espetáculo prosseguir. Tenso, é verdade. A cada movimento da cortina tínhamos medo de que a coisa despencasse de novo. Mas conseguimos ir até o final sem outros tropeços.
Foi um dos momentos de maior tensão que já vivi em teatro. A questão era tentar não interromper uma energia fortíssima que circulava na sala, produzida por uma sessão memorável da peça e pela resposta entusiástica do público. Isso foi conseguido. Ivam saiu chateado de cena. Reclamou com muita justeza que isso não poderia ter acontecido, porque esse fato põe em risco a precisão que caracteriza o trabalho da companhia, que atinge essa marca de qualidade mesmo quando atua em condições não ideais. Concordo. Mas para mim Ivam e Laerte foram heróis. Salvaram o espetáculo sem sair da pele de seus personagens. Evoé!
Livro conta a recuperação urbana e social do espaço a partir da trajetória do grupo de teatro dos Satyros, que rompeu barreiras e se firmou na cena paulistana
Ubiratan Brasil
Teatro e cinemas fechados e ruas freqüentadas especialmente por drogados e prostitutas - a imagem desoladora ainda marca a memória do ator Ivam Cabral e a do diretor Rodolfo García Vázquez quando, em 2000, estiveram pela primeira vez na Praça Roosevelt. Vindos de Curitiba, eles buscavam um local para a sede paulistana de seu grupo, Satyros. Mas o cenário pouco convidativo não foi capaz de desestimulá-los - resistentes, lutaram contra maus agouros, romperam fronteiras sociais e sexuais e conseguiram o que parecia impossível: transformar a Roosevelt em um dos pontos teatrais mais agitados e cobiçados da cidade. A história dessa heróica transformação é tema do livro Os Satyros (Imprensa Oficial, 344 págs., R$ 15), da Coleção Aplauso, que será lançado hoje, às 19 horas, na sede do grupo.
'Ao observar agora um tamanho movimento onde antes reinava um absoluto abandono, fico até com medo de que a Roosevelt se transforme em Vila Madalena', brinca Vázquez, que criou o grupo em 1989, ao lado de Cabral. De fato, batizado pela religião do teatro crítico, o Satyros sempre privilegiou, em suas pesquisas, desvendar o comportamento dos seres negados por uma sociedade que não percebe o papel fundamental que eles exercem no equilíbrio da sociedade. 'Afinal, alguém sempre tem de fazer o trabalho sujo para que a humanidade se salve.'
Eis um dos principais motivos que o grupo encontrou para se estabelecer na Praça Roosevelt, região então habitada por travestis, prostitutas, michês e traficantes. Desse mimetismo, surgiram peças como Transex, A Vida na Praça Roosevelt, Inocência, Os 120 Dias de Sodoma, Kaspar, entre outras, todas escritas e encenadas com um viés humano pouco tratado em outros textos encenados em São Paulo. E transformaram seus dois espaços na praça nos mais destacados do teatro independente paulistano.
'A urgência sempre nos motivou', comenta Ivam Cabral, que também lança hoje um livro da Coleção Aplauso, reunindo quatro textos escritos para o teatro (Faz de Conta Que Tem Sol lá fora, Os Cantos de Maldoror, De Profundis e A Herança do Teatro). 'Daí a decisão de colocarmos em cena nossas inquietações e provocações, que transpiram arte de uma forma intensa.'
Se inicialmente surpreendeu o cenário teatral paulistano (o que lhe custou quase dois anos de profundo ostracismo), o Satyros hoje é palco para uma sucessão de espetáculos, que se revezam de segunda a domingo, uma ciranda vertiginosa que atrai um número crescente de espectadores. Com isso, iluminou-se a Praça Roosevelt: os traficantes se afastaram, e os travestis e transexuais são reconhecidos como habitantes da área, incorporados ao cenário local. E, mesmo que a semelhança com a Vila Madalena esteja longe da realidade, o grupo prepara um novo e ousado passo: abrir uma terceira sala no Jardim Pantanal, em São Miguel Paulista, região carente de arte e abarrotada de injustiça.
NO SÁBADO passado, em São Paulo, fui para o Espaço dos Satyros, na praça Roosevelt, e assisti a "Inocência", de Dea Loher, com direção de Rodolfo García Vasquez. A peça fica em cartaz até o dia 18 e volta em janeiro. A montagem é surpreendente pela elegância das soluções cênicas e pela performance de todos os atores.
O texto de Dea Loher é uma meditação (teatral e engraçada: nada de longos discursos) sobre a idéia, própria aos nossos dias, de que a vida não faz sentido. Misteriosamente, a montagem dos Satyros opera um pequeno milagre: ela revela, no pouco sentido do mundo, mil razões para amar a vida. Nisso, ilustra uma moral que aprecio muito: talvez não consigamos mais sonhar com a vida como deveria ser, mas podemos abraçar a vida como ela é. Na saída do teatro, é de praxe parar numa mesa de bar naquele trecho da praça Roosevelt (escolha entre o espaço dos Satyros, o dos Parlapatões e o bar-antiquário Papo, Pinga e Petisco). A animação da rua responde à inquietude levantada pela peça: talvez a vida não faça sentido, mas nos resta viver. No mínimo, resta-nos a mesa do bar.
Sei que é pouco: a quem se sente abandonado pelas grandes causas comuns, a mesa do bar e sua conversa parecem pálidos reflexos da sociedade desejada. Mas, filosofando: se, por falta de transcendências, devemos encontrar sentido na imanência, é melhor se acostumar a dar relevância às coisas pequenas de cada dia.
Na mesa do bar, a gente dá "uma relaxada": encontra, na facilidade do convívio (ou do "convício", entre cigarros e cervejas), um amparo contra as frestas e falhas mais dolorosas. Considere seus companheiros de mesa: todos parecem espirituosos e bem-humorados.
Mas há um que, uma vez de volta em casa, perseguirá, solitário, na internet, fantasias sexuais que ele nunca se permite viver; há o casal que se deitará sem se abraçar; há outro que não quer ir embora porque a perspectiva da solidão o desespera; há outra que consegue ironizar uma perda cuja lembrança, quando ela estiver sozinha, de novo a arrasará. E por aí vai.
Não se trata de um "fazer de conta": existe uma divisão subjetiva sem a qual viver seria difícil. Já imaginou um dia inteiro na intensidade alarmante de um diálogo com seu melhor amigo, com um terapeuta ou até consigo mesmo, numa noite sem sono?
A única dificuldade com as mesas de bar é que, às vezes, o amparo se dá às custas dos ausentes, a torcida do "outro" time, os "veados", os negros, etc. (a mesa de bar pode ter uma proximidade perigosa com as mesas da infausta cervejaria onde começou o nazismo).
Mas, fora isso, as mesas de bar e as rodas de padaria são uma modesta e frágil presença da vida social concreta: elas mantêm, ao menos, a ilusão de que os outros existem para nós e nós existimos com eles. Falando em mesa de bar, na esquina de meu consultório tem um café, que, até pouco tempo atrás, tinha três mesinhas na rua. Era o lugar onde eu almoçava; era também o lugar onde as pessoas do bairro se encontravam, e a conversa rolava ao lado da banca de jornais, na frente do ponto de táxi.
Ali, vendedores ambulantes paravam entre as mesas. Meninos e meninas de rua pediam aos clientes um refrigerante e um salgado. Em suma, casas e apartamentos se prolongavam para um pouco além das portas trancadas.
Um belo dia, veio um caminhão da prefeitura; disseram que a ocupação da calçada não era legal e levaram embora (triste troféu) as mesinhas e as cadeiras de metal branco. "Quer regularizar? Faça um toldo retrátil novo." Custo: R$ 10 mil, impossível para o café da esquina.
Acho ótimo regulamentar o uso das calçadas. Mas governar, ao meu ver, deveria ser a arte de estimular a (frágil) comunidade que existe. Fazer o quê, deixar tudo na bagunça? Não, mas um funcionário da prefeitura poderia ter chegado no café da esquina (e em centenas de outros bares da cidade) e dito, por exemplo: a gente vai tornar São Paulo mais bonita, é preciso regularizar os toldos, a administração previu sua dificuldade e obteve um empréstimo do BNDES. Você vai poder pagar seus R$ 10 mil ao longo de cinco anos, a juros razoáveis.
Para que isso acontecesse, teria sido suficiente que os governantes pensassem primeiro na vida concreta da gente, que não é nada -pode ser apenas uma mesa de bar-, mas, num mundo com pouco sentido, é o que temos.
As cias. dos Atores e Os Satyros têm publicadas suas trajetórias em torno da experimentação cênica e dramatúrgica
Os Satyros contou com um integrante jornalista para relatar sua história; a cia. carioca organizou visões de atores e pesquisadores
VALMIR SANTOS DA REPORTAGEM LOCAL
O teatro brasileiro contemporâneo ainda está aquém da maioridade editorial. Mas a cultura de teatro, cultura de ler e ver, tenta cada vez mais transcender à cena. Um dos indícios é a convergência de lançamentos de livros sobre dois importantes grupos de teatro do país, um do Rio de Janeiro e outro de São Paulo: "Na Companhia dos Atores - Ensaios Sobre os 18 Anos da Cia. dos Atores" e "Os Satyros - Um Palco Visceral".
São publicações que reafirmam a importância do movimento de teatro de grupo no Brasil, dos anos 90 para cá. O registro é parte inerente da criação e da reflexão.
Edição conjunta da Aeroplano e da Senac Rio, "Na Companhia dos Atores" foi organizado por Enrique Diaz (ator e diretor), Fabio Cordeiro (co-diretor) e Marcelo Olinto (ator e figurinista). Com projeto gráfico caprichado, cujas imagens dialogam com a inquietação e a irreverência características da história da companhia, o livro procura dimensionar a importância desse agrupamento de artistas na cena carioca dos últimos anos. E o faz não apenas pela voz dos seus integrantes, mas amparado em pontos de vista, às vezes dissonantes, de pesquisadores como Clóvis Dias Massa, Cristina Ribas, Fátima Saadi, Silvana Garcia e Silvia Fernandes.
O olhar retrospectivo não surge de modo linear, mas entrecortado por depoimentos, ensaios e sobretudo fotografias dos espetáculos, imagens que têm igual peso na narrativa.
Na introdução, Diaz inicia sua "fala" com reticências, sinal de que a "obra aberta" é uma das premissas. É divertido o relato da peça de origem, "Marat/Sade" (1988), livre adaptação da obra de Peter Weiss, erguida "com três atores, cinco refletores de 500 W, uma piscina tony com um pano preto para disfarçar o azul do plástico. E um guitarrista convidado. E pijamas. E era bom".
Ainda que fruto da reunião de amigos interessados em pesquisar algumas coisas sobre pessoas que admiravam sem as conhecer, como os pensadores e criadores de teatro Tadeusz Kantor, Bob Wilson e Meyerhold, a base teórica não era tratada com displicência, nunca foi; fazia parte do jogo que vai dar em concepções bem-sucedidas, como nas visitas à obra de Oswald de Andrade, "nosso parceiro e referência", "permanente coringa das artes e das letras", na voz de Diaz: "A Morta" (1992) e "O Rei da Vela" (2000).
Ou a obsessão pela realidade da cena, no "duelo" entre a pesquisa e o como trazê-la a público, embates das inquietantes montagens de "A Bao A Qu -Um Lance de Dados" (1990), "Melodrama" (1995) e "Ensaio.Hamlet" (2004).
Praça Roosevelt
A Companhia de Teatro Os Satyros ruma para os 18 anos, em 2007, com forte presença na cena da cidade de São Paulo.
Radicada há cinco anos na praça Franklin Roosevelt, região central, transformou a geografia humana local sobretudo pelo vetor da arte do teatro. São dois espaços com programações de segunda a segunda, abertos a outros grupos. Predominam as peças de caráter experimental no texto, na direção ou na interpretação.
Em "Os Satyros - Um Palco Visceral", que sai pela Imprensa Oficial (coleção Aplauso), o jornalista, crítico e ator Alberto Guzik reconta a história do grupo dando voz a seus fundadores, o diretor Rodolfo García Vázquez e o ator Ivam Cabral.
"A palavra fica na boca do Rodolfo e do Ivam, na forma de uma longa conversa em que procurei ficar o mais invisível possível", diz o autor, há três anos integrado ao elenco. Entre as montagens marcantes de Os Satyros, grupo também de Curitiba, estão "Sades ou Noites com os Professores Imorais" (1990), depois "Filosofia na Alcofa", cuja remontagem está em cartaz; "Antígona" (2003); e "A Vida na Praça Roosevelt" (2005). A mesma Imprensa Oficial lança "O Teatro de Ivam Cabral - Quatro Textos Para um Teatro Veloz" (R$ 15, 280 págs.), onde o ator mostra sua face de dramaturgo.
NA COMPANHIA DOS ATORES - ENSAIOS SOBRE OS 18 ANOS DA CIA. DOS ATORES Organizadores: Enrique Diaz, Fabio Cordeiro e Marcelo Olinto Editora: Aeroplano/Senac Rio Quanto: R$ 65 (387 págs.)
OS SATYROS - UM PALCO VISCERAL Autor: Alberto Guzik Editora: Imprensa Oficial Quanto: R$ 15 (344 págs.) Lançamento: amanhã, às 19h Onde: Espaço dos Satyros 1 (pça. Franklin Roosevelt, 214, tel. 0/xx/11/ 3258-6345)
"Inocência" acaba de receber o prêmio APCA - da Associação Paulista dos Críticos de Arte - como o melhor espetáculo do ano. A lista completa está no site da associação:
Fizemos um trailer da peça e colocamos no Youtube. Pra quem ainda não assistiu ao espetáculo, acho que é um bela oportunidade pra conhecer algumas cenas. É só clicar ai abaixo.
Os melhores de 2006 A Escolha da Gente Ano de 2006 foi profícuo nos palcos. Em produções ousadas ou espetáculos intimistas, encenadores e atores nem sempre tiveram casa cheia, mas a qualidade das propostas ficou evidenciada
Angela Barros e Fabiano Machado em Inocência: rara beleza visual
BR-3 de Bernardo Carvalho direção Antônio Araújo Depois da trilogia bíblica (Paraíso Perdido, O Livro de Jó e Apocalipse 1.11), o Teatro da Vertigem mostrou a degradação do povo brasileiro em pleno Rio Tietê, em São Paulo.
Leitor por Horas de José Sanchis Sinisterra direção Christiane Jatahy Um memorável trio de atores – Sebastião Vasconcelos, Ana Beatriz Nogueira e Luciano Chirolli – interpreta as transformações de cada um a partir da relação com a literatura neste texto espanhol.
Inocência de Dea Loher direção Rodolfo García Vázquez A parceria da companhia Os Satyros com a alemã Dea Loher em A Vida na Praça Roosevelt rendeu mais este espetáculo de rara beleza visual sobre criaturas desencantadas com suas existências.
Outono e Inverno de Lars Norén direção Eduardo Tolentino de Araújo Sérgio Britto e Laura Cardoso (substituída por Suely Franco na temporada paulistana) brilharam no espetáculo que apresentou aos brasileiros o dramaturgo sueco.
A Mulher Desiludida de Simone de Beauvoir direção Gilberto Gawronski Guida Vianna, em um momento de extrema inspiração, interpreta a amarga Murielle, que, durante o Réveillon, divide suas frustrações com a platéia neste monólogo.