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Ainda sobre a Alemanha - parte I
O Michael Laages, crítico alemão, escreveu este artigo para uma revista alemã. Ele acompanhou nossa tourne na Alemanha.
Nunca existiu tamanho intercâmbio cultural no teatro quanto com a “A vida na Praça Roosevelt” da “Companhia Os Satyros” na Alemanha
Nossa calçada
Nenhuma noite foi sem lágrimas, assim como ninguém deixou de rir ou de aplaudir sem parar (o que é bastante incomum no teatro brasileiro) – na Alemanha é o público que decide, quanto tempo quer demonstrar o seu entusiasmo: primeiro com as mãos, depois com a batida dos pés, gritando “Bravo” e afinal com uma constante ovação, que só termina quando o público resolve sair em conjunto. Tudo isso aconteceu para os “Satyros” de São Paulo e a peça de Dea Loher “A vida na Praça Roosevelt” - eles chegaram a ser ovacionados oito vezes, quinze minutos sem parar. Na primeira noite em Mülheim e depois novamente - naturalmente a companhia estava com os olhos cheios d'água: Phedra e Angela, as duas Sorayas, Nora, Cleo e Tatiana, Alberto e Fabiano, Daniel e João, Laerte e Ivam, também Emerson e Igor na cabine técnica, assim como Theo Solnik, que era responsável pelas legendas feitas ao vivo e por fim Rodolfo e Dea Loher, que acompanharam toda a Tourné. Eles estavam muito agradecidos pelo reconhecimento e pela enorme disponibilidade do público em toda parte por onde passaram de compartilhar as emoções desta peça com a companhia. Também estavam um pouco orgulhosos, pois não se deixaram levar pelo gesto comum a outras companhias que se apresentaram no programa da “Copa da Cultura”: aplaudir o público de volta. Não! – a peça da Companhia “Satyros” de São Paulo foi mais forte e autoconfiante, tomando um passo decisivo rumo a um encontro exemplar na troca entre as culturas.
A última grande e bela imagem para este encontro, foi quando a companhia do Thalia Teater de Hamburgo apresentou a versão alemã da peça “A vida na Praça Roosevelt” pela última vez. A mesma versão, cuja estréia foi o começo da história, que viajou para o Brasil e que colocou a pedra fundamental, instituindo assim um desafio para a própria prdução dos “Satyros”.
Nesta ocasião, as atrizes e atores de Hamburgo pediram para que os seus colegas de São Paulo subissem ao palco, sendo que eles estavam ali somente como público. As várias fotos desta despedida e deste grande texto provavelmente vão ser para muitos e talvez por muito tempo ainda um dos momentos inesquecíveis a guardar na lembrança. Com certeza eles escreveram esta história juntos, acha o Rodolfo, pois talvez nunca tenha existido em nenhum lugar um encontro de uma forma tão concreta e mútua. E Dea Loher via-se no meio de um momento extremo de felicidade, como talvez ela nunca terá mais em sua vida.
“Nossa calçada” dizia Rodolfo sempre quando ele contava na Alemanha a respeito do grande cotidiano do pequeno mundo dos “Satyros”. Morte, pavor e susto das mais variadas formas podem ser encontradas nesta história, que a dramaturga conta como um misterioso e distorcido “Cosmos”, no qual emergem subitamente momentos de grande saudade: de fé, amor e esperança. A peça é sempre como um choque, fazendo o público rir e travar os dentes, deixando todos sem fôlego. Às vezes por causa do riso e às vezes por causa das lágrimas. Duas horas e meia dura a paixão, sendo (mais evidente e claro do que no artificial, frio, abstrato e estranho mundo de imagens da estréia do diretor Andreas Kriegenburg de Hamburgo)súplica, exorcismo e catarse ao mesmo tempo.
Escrito por Laerte Késsimos às 13h11
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Ainda sobre a Alemanha ainda - parte II
Assim como no “Teatro Oficina” de Zé Celso no outono passado e especialmente em vários grupos da programação da “Copa da Cultura”, é bastante incomum e novo para o público alemão ter tanta emoção como na “Praça Roosevelt” de Dea Loher; o teatro daqui hoje em dia é definido por conceitos intelectuais e pré-concebidos.
E são os momentos mais simples do texto de Loher e da montagem de Rodolfo, que não deixaram ninguém imune na Alemanha: a cena curta com a mulher, que quer levar os ossos de sua filha morta num ônibus para a sua casa no Nordeste. Ali o teatro pára de respirar por um momento inigualável e inesquecível, onde o mundo fica quieto e mudo sem saber o que está por vir – nenhum dos megacaros e superequipados “teatros-top” alemães (diferente do Brasil) conseguiram atingir algo assim até então. E não é à toa que Kriegenburg não se atreveu a mexer nesta cena, porque ele sabia que todos pensariam que ele não tinha o direito de mostrar algo assim. Mas é possível que outros diretores inteligentes como ele gostassem de aprender com esta experiência – e recordar-se desta energia incrível não só da companhia brasileira, mas também do teatro em si.
Assim “A vida na praça Roosevelt” não teria deixado somente marcas profundas na Alemanha, mas também gerado um efeito além da peça. Em São Paulo foi assim:
A “Folha de Sao Paulo” chamou a dramaturga Loher de “paulistana” de honra, ganhando o “Prêmio Shell” com a peça e a montagem. Desde então, o “Espaço dos Satyros” faz parte da primeira liga de teatros da cidade. Também o Rodolfo quer tirar proveito desta experiência, levando-o a ensaiar a outra peça de Loher chamada “Inocência”, que surgiu antes das histórias na Praça Roosevelt e que também estreiou sob a direção do Andreas Kriegenburg.
Quando os “Satyros” ensaiarem esse texto de Loher, eles vão se lembrar como numa aparição daquela noite na Alemanha, pois após a estréia de Hamburgo, a companhia correu para o bar off da Rua Erich da “off Reeperbahn” (a nossa versão para a Rua Augusta).
Alí tem no fundo uma mesa de “penbolim”, com muitas fotos de heróis como Gerd Müller, Johan Cruyff, Diego Armando Maradona, além de uma, que só os convidados de São Paulo reconheceram na hora: do mestre Garrincha. Esse sim (e não o Pelé!) é venerado por estes convidados, que naquela noite pararam por acaso num lugar como este, dando assim início à uma festa especial, onde exatamente este Garrincha estava presente – o homem daquelas pernas especiais, que deixava todos os defensores tontos quando jogava, que era casado com a diva Elza Soares, mas que no fim da vida empobreceu e morreu devido à bebida.
Quase todos daquela pequena festa brasileira deixaram-se fotografar com aquela imagem empoeirada do Garrincha – no quarto embaçado de um bar de “Saint Pauli”, onde o DJ toca música country. Naquele momento nada parecia combinar, mas talvez os “Satyros” sintam-se à vontade assim, pois a própria Praça Roosevelt é uma terra de ninguém no meio de uma cidade enorme. E naquela noite “Saint Pauli” era literalmente como São Paulo.
E quem sabe seja possível fazer esta troca de talentos na própria companhia – e levar os convidados da estréia de “Inocência” a festejar num canto escuro da Praça Roosevelt; a “Saint Pauli” brasileira. Mesmo se lá não tiver nenhuma foto de Beckenbauer ou de Müller pendurada.
Michael Laages traduzido por Nathalia Fari
Escrito por Laerte Késsimos às 13h10
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