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"Perdi o gosto de viver"
São Paulo, sexta-feira, 05 de maio de 2006  |
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JUSTIÇA
Ex-mecânico, que ficou cego em rebelião, foi confundido com assassino em PE
Preso 19 anos por engano terá pensão de R$ 1.200
FÁBIO GUIBU DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
Após passar 19 anos preso injustamente em Recife (PE) e esperar mais oito por algum tipo de reparação, o ex-motorista e ex-mecânico Marcos Mariano da Silva, 57, conseguiu ontem sua primeira vitória. O governador de Pernambuco, José Mendonça Filho (PFL), sancionou uma lei autorizando o Estado a conceder-lhe pensão indenizatória no valor de R$ 1.200 por mês, a partir de junho. Silva ficou cego em conseqüência de uma rebelião na prisão, em 1992. Hoje, vive de favores. A frota de seis táxis e a oficina mecânica autorizada Mercedes-Benz que possuía em Cabo de Santo Agostinho (a 30 km de Recife) foram tomadas por credores ou vendidas para o sustento da sua ex-mulher e as dez filhas, que o abandonaram durante o período de cárcere. O TJE (Tribunal de Justiça do Estado) reconheceu o erro e, no ano passado, determinou o pagamento de uma indenização de R$ 2 milhões. O governo, porém, recorreu, e o processo está no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Acusado de homicídio, o ex-mecânico foi preso duas vezes e nunca julgado. Em 1979, foi detido na sua oficina e conduzido ao presídio Aníbal Bruno. Permaneceu no local seis anos, até que o verdadeiro assassino foi encontrado pela polícia. Chamava-se Marcos Mariano Silva, quase um homônimo. Livre da acusação, ele aceitou as desculpas da Justiça e da família da vítima. Deixou a prisão em 1985 e não exigiu qualquer reparação. "Eu só queria ter saúde e voltar à sociedade", disse.
Liberdade condicional Endividado e já sem boa parte do patrimônio que possuía, Silva comprou a prazo um caminhão usado e começou a trabalhar em Arapiraca (AL), transportando fumo. Mas, três anos anos depois, a polícia voltou a procurá-lo com um mandado de prisão. Foi levado de volta ao presídio Aníbal Bruno, acusado de infringir uma suposta liberdade condicional. "Não havia infração, porque ele não era um detento", disse o advogado do ex-mecânico, José Afonso Bragança Borges. Silva passou mais 13 anos detido. No presídio, foi colocado em celas superlotadas, com criminosos de alta periculosidade. Disse ter sido torturado e obrigado a passar períodos sem banho de sol. Um ano e oito meses após a segunda prisão, sua mulher na época e as dez filhas o abandonaram. Em 1992, durante uma rebelião, policiais invadiram o presídio e detonaram bombas de efeito moral nas celas e pavilhões. Silva foi atingido no olho esquerdo por estilhaços de uma granada e perdeu a visão depois de seis meses. O olho direito também foi afetado, e, em 1997, o ex-mecânico ficou cego. Em 1998, seu caso foi finalmente detectado durante um mutirão judicial para a avaliação dos processos no presídio. Libertado no mesmo ano, ele se casou com uma mulher que conheceu no presídio durante os dias de visita. Ela tem um neto de oito anos, que o casal adotou como filho. Silva decidiu então processar o Estado. Pediu na Justiça uma indenização de R$ 6 milhões. Em 2003, ganhou a ação em primeira instância, mas o valor foi fixado em R$ 356 mil. Ele recorreu. O Estado fez o mesmo. No ano passado, o TJE manteve a decisão, mas aumentou a indenização para R$ 2 milhões. O governo voltou a recorrer, mas, com a lei sancionada ontem, Silva ganhou o direito de receber a pensão mensal até que o valor fixado pelo STJ seja quitado. |
"Perdi o gosto de viver", diz ex-mecânico
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
Para o ex-motorista e ex-mecânico Marcos Mariano da Silva, a pensão de R$ 1.200 concedida pelo governo de Pernambuco como indenização pelos 19 anos em que permaneceu preso injustamente "representa só 5% da justiça", disse ele, em entrevista à Folha.
Folha - O que o sr. achou da pensão de R$ 1.200? Marcos Mariano da Silva - Acho que representa só 5% da justiça. Saí cego e tuberculoso, perdi tudo o que tinha. Perdi o gosto de viver, não tenho mais prazer. Mas esse dinheiro vem em boa hora, porque minha família vive hoje de favor.
Folha - Como foram os 19 anos presos injustamente? Silva - Na cadeia fui torturado, fiquei com presos perigosos, assassinos e traficantes. Na cela havia cinco camas e 48 presos. Levei palmatória, chutes, porrada na cabeça. Mandavam a gente deitar pelado na galeria e pisavam por cima.
Folha - O que pensa do futuro? Silva - Entrego a Deus. Perdi o gosto de viver, não tenho mais prazer nenhum. Já tentei o suicídio em 1999, mas vi que o caminho não era esse. Quero me dedicar à família. Não tenho sonhos. Quero que meu filho curse a universidade. Vou ajudar minhas filhas, meus pais [com o dinheiro].
Escrito por Laerte Késsimos às 12h26
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Passiva Suja e mal dormida
- Moço. Ele não ouviu. - Moço, vem cá, moço. A voz era estridente. E ela gritava num agudo infinito, parecido silêncio. E ele finalmente olhou para ela que ficou rubra. - Vem cá, moço - sussurrou ainda num agudo profundo. Ele em silêncio; ela amedrontada, agora. - É só um chupisco. Ela pensava que ele entendera; ele agora assustado. - Um chupisco só, moço. Ele baixou o olhar. Ela, agora dona da situação. E num relance, agarra o pau dele. - Vai levar porrada, vadia - alertou o moço. - Chupisco. Só um, moço - ela implorou, baixinho. - Vou te comer, então. A bicha, passiva, escandalosa, antes dona da situação, alternava um desespero arrogante com uma submissão de bicha-passiva-mal-tratada. - Abaixa as calças e deixa eu ver seu cu. Ela começou a chorar. Se lembrou da última vez em que havia tomado banho. Estava suja e melancólica agora. Não havia lavado o rabo. - Moço... E silenciou. O moço começou a chorar. Lembrou de uma canção antiga ouvida na casa do tio-avô. Parecia que o tempo havia parado por ali. Lágrimas vieram no rosto da bicha-suja-passiva. O moço, agora de pau duro cuspido, queria meter na bicha sem camisinha. - Vai devagar, moço. E ele colocou tudo lá dentro. E ela chorou. Suja, reprimida, gemendo em agudos estridentes.
Escrito por Laerte Késsimos às 18h02
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Compra-se alma
Do jeito que as coisas andam é bom ter umas em casa pra quando você precisar. Dá pra contar nos dedos do Lula as pessoas a minha volta que ainda tem uma. As pessoas se aproximam e você pode ver claramente suas roupas bonitas, seus sapatos novos, sua barriga malhada, sua pele cuidada, seus cabelos bem cortados, seus olhos sem reflexo.
Será que é no reflexo dos olhos que vive nossa alma?
Um comprador de almas. Isso sim é um bom negócio. Daqui algum tempo vai ter gente por ai vendendo a mãe pra ter uma alma, umazinha só. Não importa a cor, o tamanho nem o brilho.
Tenho um amigo que tem uma alma muito maltratada. Pequenina, opaca – quase não se consegue ver – pobrezinha que dá dó. Nem parece ser a alma dele, porque ele é tão grande, bonito e brilhante que ninguém nunca ligaria uma coisa a outra. Queria ajuda-lo. Assim talvez pudesse me ajudar também. Existe remédio pra alma? Cicatrizante, mertiolate, morfina?
Morfina pra dor na alma. Pra fechar os buracos abertos pela vida. Abertos pelas nossas próprias mãos. Como será que ta minha alma? Vazio assim o coração só serve pra bombear o sangue.
Ajudar a sua alma. Vai ver ajude a minha também. Bom negócio pros dois. Devíamos tentar. Podia comprar umas almas, só pra alguma emergência. Abrir um boteco pra servir morfina pras almas furadas. Contratar uma costureira. Pra remendar.
Compra-se almas!!! Compra-se almas!!! Gritariam desesperados os olhos sem brilho pelas ruas.
Não quero perder o brilho dos meus olhos. Me deixa ver o brilho dos teus?
 Leonilson Cheio, vazio 1993 bordado sobre voile e tecido de algodão 54,0 x 49,0 cm
Escrito por Laerte Késsimos às 15h42
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