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Maria Clara
No final de semana passado conheci Maria Clara. Uma amiga virtual que eu tinha desde os tempos de Transex. Ela mora em Assis, perto de Marília. Ela foi ao teatro em Marília para nós conhecer e assistir "A Vida Na Praça Roosevelt". O Ivam que também já era amigo dela escreveu um texto no blog dele. Acho que o texto dele traduz o que senti quando conheci pessoalmente e Clara. Então, tai. Peguei o texto lá nas Terras de Cabral.
MARIA CLARA, ANJO
Maria Clara é uma menina linda que vive em Assis, interior do estado. É funcionária pública e revendedora da Natura. Há alguns meses namora um rapaz do Rio Grande do Sul. Tem formação em ballet clássico e teatro. Já foi ator. Sim, ator mesmo. É que a menina Clara nasceu num corpo de homem. E há pouco menos de um ano faz a transição masculino-feminino. Eu a conheci há cerca de dois anos. Espera, conheci virtualmente. Porque assim pessoalmente só a vi neste final-de-semana.
Mas eu já era seu amigo. Participava de algumas intimidades suas. E ela das minhas. E quando nos vimos, assim, frente a frente, era como se já nos conhecessemos há muitos e muitos anos.
Foi assim. A gente tava fazendo "Transex". E de algum lugar, de muito longe, um menino começou a teclar com a gente. Parecia estar surpreso com algumas coisas do nosso trabalho. Curioso, queria saber detalhes sobre nosso processo criativo e sobre os atores que trabalhavam com a gente. E foi percebendo que aqui, na praça Roosevelt, o vento soprava em zigue-zague.
Então, num belo dia, o menino começou a se tratar no feminino e mudou seu nome. E nasceu esse ser adorável, a Clara. Sim, porque algum deus diabólico havia prendido a Clarinha em algum subterrâneo profundo e não a deixava transitar entre nós. Num belo dia, aquele menino tímido e triste que teclava comigo foi embora - provavelmente foi viver noi céu - e a Clara surgiu radiante, feliz, deslumbrante mesmo.
E eu fiquei pensando no poder de transformação do teatro. Sim, porque mesmo à distância os ecos do nosso trabalho e da praça Roosevelt chegaram àquele menino de Assis. E transformaram-no. Hoje ela é amiga de uma porrada de gente que a Roosevelt lhe apresentou. Do Sergio Coelho a Fernanda D' Umbra; do Laerte Késsimos ao Alberto Guzik.
E eu pude comprovar agora, assim frente a frente, que a Clara jamais poderia ter continuado a viver naquele corpo de menino. E, diferente de tantas pessoas que eu tenho conhecido por aqui, ela só pensa em amar. Perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. "Ter uma família, com marido, essas coisas", me respondeu.
E a menina Clara que vive em sua Dogville (é assim que ela se refere à sua cidade) prossegue seus dias. Romântica como só, adora Clarice Lispector e espera por dias melhores. Sim, porque ela quer ser uma mulher por inteiro e não vê a hora de fazer a sua cirurgia de mudança de sexo. E eu acabei de visitar o seu blog. Encontrei uma música do Roberto e Erasmo Carlos. Provavelmente ela tava se referindo ao seu amado gaúcho. Mas eu vi tantos paralelos com a sua vida...
Eu não sei por quanto tempo eu Tenho ainda que esperar Quantas vezes eu até chorei Pois não pude suportar
E quem agora vai me dizer que ó teatro não é transformador? E quem vai engolir agora as agressões que recebemos quando o "Transex" tava em cena e quando ouvíamos comentários do tipo "por que discutir este assunto"?
Mas vamos em frente com o nosso amor. Por aqui eu me orgulho de ter feito uma amizade assim, tão especial. Porque, juro, quando abracei a Clarinha, eu tive a sensação de que tinha comigo um anjo. Sofrido, dolorido, de asas quebradas até. Mas anjo.
Texto retirado do Blog do Ivam Cabral - www.terrasdecabral.zip.net
Escrito por Laerte Késsimos às 11h08
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Abre. Fecha. Desaba.
Fecharam a porta. Apertou o botão. Desceu correndo as escadas. Estava na rua. Caminhava rápido. Sentia muito calor. Rua, pessoas, lojas, carros, shoppings. Belezas, tristezas, caminhos. Caminhos. O Caminho. Corre no meio dos carros. Arranca a camisa. Branco. Frágil. Descabelado. Casca de casulo vazio. Corre no meio dos carros. Piririm piririm piririm, alguém buzinou pra mim. Abre. Fecha. Sobe escadas. Abre. Fecha. Desaba. Se perde tão longe dentro de si mesmo que é preciso esquecer de si. Esperou alguém chamar. Mas ninguém chamou. Pelo menos naquela hora ali perdido ninguém chamou. Se perdeu tão longe dentro do outro que teve que rasgar pra sair.
 Leonilson Gigante com flores 1992 bordado sobre algodão 220,0 x 210,0 cm
Escrito por Laerte Késsimos às 19h00
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