
Colocaram um muro alto no lugar do portão da minha casa. No caminho da rodoviária até em casa, está tudo aparentemente igual sempre. Minha mãe contratou um faxinerio para limpar a casa na minha chegada. Ela nunca faz isso.
- Mas dia 26? Já? Dia 26 é... Laerte! Dia 26 já é... Porque vc não vai mais perto do dia 31?
Meu pai está velho. Meu irmão mais novo que ainda mora com meus pais não quer conversar.
- Que tem feito?
- O de sempre.
- "O de sempre" o que ?
(silêncio)
- Nenhuma novidade?
- Não.
- E o pessoal? Anda com a mesma galera? Novidades?
- Não.
- Tá todo mundo bem?
- Tá.
- E o Cidmar e o Thiago?
- Liga pra eles.
Não sei se ele ainda é um adolescente chato, ou se já é um jovem descobrindo a depressão dos nossos tempos. As vezes age como se eu não estivesse ali. As vezes age como se a vida não estivesse ali. Ouve música, joga video games, e dorme o dia todo. Vinte e um anos. A noite sai. Meu pai as vezes fala sozinho e mede a própria pressão o tempo todo.
- Fuk, fuk, fuk, fuk, fuk...
- Ziiiiiiiiiiiiiii
- Fuk, fuk, fuk...
Nesceu um pé de maracujá na sacada dos fundos da casa. Grande. Bonito. Verde que da gosto de ver. Tomou conta do telhadinho que cobre o *fogão de lenha. Tem também uma amoreira que vem lá de baixo do quintal e sobe até se misturar com o pé de maracujá. Eu vi uma lagarta na amoreira. Minha mãe tem fobia a lagartas. Agora estou no quarto do meu irmão enquanto escrevo. Ele dorme e ouve músicas de animes japoneses. Meu pai agora além dos cachorros, cria galinhas no quintal dos fundos. Nove galinha e um galo. Nasceram pintinhos na semana passada.
- Nenhuma novidade mesmo? Eu insisto.
- Não, eu já disse que não.