Laerte e o Mundo - Blog do Laerte Késsimos


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Eu sorri. Corri. Mas não me encontrei.

A única coisa que sei é que usava bermuda, camiseta e uns tênis amarelos sem meia. Tinha os cabelos pretos, bonitos, em caracóis e colocados pra trás com um tiara.

Olhou pra mim algumas vezes.

Eu não tinha imaginado. Na verdade tinha. Mas achava que não.

Eu preciso ir. Eu me levantei e esperei.

Se levantou passou por mim esbarrando de leve nas minhas costas. Falou qualquer coisa a pessoa qualquer e voltou tocando novamente de leve minha pele.

 

Eu sai.

Me olhou, mandou três beijos com as mãos e se foi.

Eu sorri. Corri. Mas não me encontrei.

Se você me vir por ai, diga que eu o procuro.

Diga pra me buscar. Eu “vou buscar alguém que eu nem sou.”

 



 Escrito por Laerte Késsimos às 09h42
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Uma notícia incrivel!!!

A revista Theater Heute, da Alemanha, publica crítica de “A Vida na Praça Roosevelt”

Acabou de sair na Theater Heute, da Alemanha, (edição de outubro) a principal e uma das mais importantes publicações de teatro do planeta, uma crítica sobre "A Vida na Praça Roosevelt". Os Satyros estão em festa. Não é toda hora que o teatro alemão resolve falar do teatro brasileiro.

A revista Theater Heute, da Alemanha, publica crítica de “A Vida na Praça Roosevelt”
Do Brasil para a Alemanha, ida e volta
por Michael Laages


Vale a pena recapitular rapidamente a história. Ela começa com o tema adotado pela Bienal de Arte de São Paulo em sua edição do ano passado: „arte em território livre“, uma espécie de „terra de ninguém“, termo que define com precisão o espaço dessa cidade. O Instituto Goethe local, responsável pela programação cultural alemã em toda a América do Sul, convidou a dramaturga alemã Dea Loher para escrever uma peça em e – se possível – sobre São Paulo. A peça estrearia no Thalia Theater de Hamburgo, que seria convidado a apresentá-la em seguida durante uma turnê ao Brasil (justamente na abertura da bienal mencionada). Assim, „A vida na Praça Roosevelt“, esse o nome da peça, viajou primeiro como fantasia estrangeira na cabeça da autora do Brasil para a Alemanha. Depois voltou a São Paulo já como encenação pronta de Andreas Kriegenburg. No ano em curso, a peça foi convidada a participar também das Jornadas de Teatro de Mühlheim. Mas agora chegou definitivamente ao seu ponto de partida: na praça Roosevelt, em São Paulo, encenada por um teatrinho minúsculo que se chama “Espaço Os Satyros“ e que, durante cinco anos difíceis, prestou uma contribuição extraordinária à transformação desse território inóspito, de modo que este deixou de ser um território de ninguém. Pelo contrário, é justamente nessa praça que o jovem teatro dessa monstruosa mega-metrópole conquista um espaço dedicado um experimento chamado sobrevivência.


Entre a realidade e a afirmação da arte

Quando tudo parece perdido, uma canção pode ser a salvação. Por mais precário que seja o dia-a-dia na praça Roosevelt, essa quadra de concreto no centro de São Paulo que, incluindo igreja e parque, se levanta sobre uma das principais vias de trânsito da mega-metrópole, os momentos de uma breve tranqüilidade já se tinham revestido de um sentimentalismo comovente na versão que Kriegenburg deu ao quebra-cabeça de Dea Loher, composto de histórias trazidas das fímbrias da realidade. Voltando agora ao ambiente real em que vivem os modelos que inspiraram a peça, Rodolfo Garcia Vazquez, chefe do “Satyros” que trabalha inclusive esporadicamente na Alemanha, também não se furta a uma lágrima silenciosa em meio à fúria dos desesperos: e esta cabe a Phedra D. Córdoba, uma simpática representante da zona, que é uma espécie de modelo da figura comovente do travesti Aurora na peça de Dea Loher. Phedra está no seu papel, “autêntica”, mas agora, no texto de Loher, como “a criança que ela foi”. Esse é o padrão localizado entre a realidade e a arte que a encenação persegue de diversas maneiras, para que entre os dois pólos surja a veracidade como o valor mais importante.

“A vida na praça Roosevelt” fala em primeiro lugar de um policial que procura desesperadamente (no encontro com todos que giram em torno da praça) o seu único filho transformado em traficante – uma história que pode fazer parte do cotidiano desse ambiente; mas que, segundo a intenção da autora, nem mesmo aqui em São Paulo deve ser visto apenas como uma realidade identificável. Desde o início, Vazquez tratou de preservar a encenação de uma realidade por demais simplória, valendo-se para tanto de alguns recursos tão simples quanto efetivos. Assim, Mirador, o policial representado por Ivam Cabral, co-diretor com Vazquez, descreve a própria praça Roosevelt com a ajuda de uma pequena maquete. E uma das figuras mais poéticas de toda a peça, um sem-teto, sentado na praça, mudo, coberto apenas com um plástico, escrevendo preces para aqueles que acreditam em sua eficácia, permanece durante a peça inteira como testemunha muda do cotidiano: um poeta triste que parece ter anotado todas essas histórias – como o fez na verdade a autora.

Com a maquete do início (feito, aliás, de lixo como aquele que se junta a cada dia nos desvãos da praça Roosevelt), a encenação criou um espaço entre o cotidiano e o pesadelo. Mais decididamente que Kriegenburg em Hamburgo (e, naturalmente, de uma maneira bem diferente) Vazquez decifra no texto de Dea Loher o humor de um desespero profundo. Na cena, por exemplo, em que o herdeiro de uma pequena fábrica de armas, desesperado com a própria atividade, pede à gentil funcionária de um salão de Bingo das vizinhanças que “cante” para ele os número da sorte, enquanto assiste a um jogo de futebol na TV de um boteco, ouve-se ao fundo a transmissão da final da copa do mundo de 1954, na voz de Herbert Zimmermann – uma brincadeira futebolística brasileiro-alemã. Mas, em princípio e em geral pode-se dizer que um texto de Dea Loher nunca deve ter soado de maneira tão descontraída como aqui; é provável que ela nunca tenha revelado de maneira tão afirmativa e alegre a sua saudade de algo como uma moral em tempos imorais, de amor em tempos de desamor, talvez até de salvação de todo esse pesadelo insensato que tem a sua origem no absurdo aparentemente inevitável, conjurado exemplarmente nesse lugar que é a praça Roosevelt.

Em São Paulo, a peça termina de uma maneira mais soturna do que em Hamburgo, com mais paixão e menos alegoria do filho perdido, massacrado, como se viu na encenação de Kriegenburg; em vez de uma visão fria e atônita, a emocionalidade extrema de um grito de desespero. E a crítica local se mostra profundamente impressionada pela peça e pela encenação. Na Folha de S. Paulo, Sérgio Coelho dá à peça quatro estrelas (nota máxima) e a qualifica de “obra-prima”, o que se justifica plenamente. A impressão eventualmente deixada pelo texto de Dea Loher na encenação de Vazquez encontra a sua imagem adequada no comentário de Sérgio Coelho: depois das palmas habituais nos teatros de São Paulo, o público “volta para casa em silêncio, para ficar com os olhos abertos na escuridão”.

Fonte: Theater Heute, Alemanha, Outubro de 2005


 Escrito por Laerte Késsimos às 00h57
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São Paulo, domingo, 09 de outubro de 2005
MÔNICA BERGAMO

Espaço dos Satyros movimenta o centro com 16 espetáculos em cartaz

Todo mundo na praça

Fotos Ana Ottoni/Folha Imagem
No chamado "Pentágono", Rodolfo García Vázquez (esq.) e Ivam Cabral seguram a maquete que reproduz a região onde mantém duas salas de teatro; freqüentadores já serviram de inspiração para uma das peças do grupo, "A Vida na Praça Roosevelt"


Cercado por uma vitrola e discos em vinil de Fernando Mendes e Carmen Miranda, o ator Ivam Cabral está com ar cansado e olheiras quando recebe a coluna no escritório do grupo de teatro Os Satyros, em São Paulo. "Estou de ressaca", confessa. Cabral, 40, um dos fundadores do grupo, passou noites em claro por causa do evento "Satyrianas, uma Saudação à Primavera", o maior projeto da companhia: 78 horas de atividades ininterruptas, desde leituras de peças e poesias à encenação do espetáculo "Uroborus", que durou mais de três dias na semana passada. Sim, três.

O espetáculo era uma colagem de textos clássicos da dramaturgia onde 78 duplas de atores se revezavam por uma hora em cena. "Até no cruel horário das 9h da manhã, contamos três espectadores na platéia: o cantor Chico César, uma socialite que chegou com motorista, e um bêbado que saiu sem entender nada", diz Cabral, no 6º andar de um prédio que já foi apart-hotel de travestis e hoje abriga duas salas do grupo, com vista para a praça Franklin Roosevelt.

Quando Cabral e o diretor Rodolfo García Vázquez, 43, chegaram na praça Roosevelt, há cinco anos, a região era ponto de tráfico, de prostituição e vivia às escuras por causa do quebra-quebra de lâmpadas provocado pelos traficantes.

"Está vendo esse bueiro aqui?", aponta Cabral para uma espécie de esgoto diante do Espaço dos Satyros, onde atualmente estão em cartaz 16 espetáculos (às vezes são apresentados até cinco por noite), de domingo a domingo. "Era onde os traficantes guardavam os papelotes de crack e cocaína. E sabe o que fizemos para negociar nossa permanência na praça? Encontramos outro bueiro do outro lado da praça e sugerimos que mudassem de lado."

Às 17 h, chega à sede d'Os Satyros Phedra D. Córdoba. Considerada por Cabral e Vázquez a estrela do grupo, Phedra é na verdade Filipe, um travesti cubano de 67 anos que chegou ao Brasil nos anos 50, trabalhou no teatro de revista de Walter Pinto e ficou amigo de artistas como Consuelo Leandro e Costinha. Phedra cruza as pernas, acende um cigarro: "Detesto ser chamada de diva". Até ser escalada como atriz pelos Satyros, Phedra se dividia entre shows em restaurantes e, eventualmente, era "cortesã". "Renasci como uma fênix", diz. Hoje Phedra ganha salário, como boa parte dos 24 empregados do grupo. A remuneração de atores e técnicos - um deles, ex-assaltante que virou iluminador- vai deR$ 400 a R$ 2.200 mensais, com participação na bilheteria.

Além da renda que vem do público, o grupo tem apoio da Prefeitura de SP através do Programa de Fomento ao Teatro. Neste ano, já recebeu R$ 120 mil.

Cabral, que mora nos arredores, dá números para mostrar que a movimentação em torno d'Os Satyros responde por uma parte da recuperação da auto-estima da região. "Quando compramos a sala do Satyros ela valia R$ 25 mil. Já está avaliada em R$ 60 mil", diz. Cabral caminha pela praça. Ele passa pelas três floriculturas e pelo supermercado instalados no primeiro nível da Roosevelt, sobe uma rampa e chega ao chamado "Pentágono", uma praça com pouco verde e três postes de iluminação, freqüentada por adolescentes. A cada trecho é abordado por moradores, donos de estabelecimentos comerciais e travestis com sacolas de compras.

Um dos moradores de um quitinete na região é o escritor Marcelo Mirisola, 39, seis livros publicados, que chegou a participar como ator da maratona teatral da semana passada. Mirisola cumprimenta Cabral que, metros adiante, recebe elogios do comerciante Esdras Vassalo, 72. "Os Satyros trouxeram mais gente para cá. Antes aqui era um deserto e até gente morta encontrávamos na praça", diz ele, morador da Roosevelt e dono do bar Papo, Pinga e Petisco, "no mesmo local onde Elis Regina fez o primeiro show em SP."

Cabral volta ao Espaço dos Satyros porque é dia de balanço do evento "Satyrianos" e a equipe estará esperando por ele. Reencontra Vázquez, Phedra e o restante do elenco, dentre eles o ex-crítico de teatro Alberto Guzik. "Acho que a cena de sexo explícito não foi legal. Foram só quatro minutos e os atores pornôs ainda queriam fazer 69, frango assado", diz um dos atores. "O problema é que a peça foi exibida muito tarde, às 6h. Poderia ser mais cedo, umas 3h da madrugada. E a gente se divertiu mais que o público", completa Guzik. Gargalhadas.

Vázquez começa a falar do próximo projeto. Quer montar "120 Dias de Sodoma", obra de Marquês de Sade que foi filmada por Pier Paolo Pasolini e causou polêmica quando exibido. Na versão d'Os Satyros, os libertinos da peça serão deputados e senadores "legitimamente eleitos pelo povo brasileiro". "O castelo será em Brasília, e os adolescentes abusados serão o povo brasileiro submisso e descaracterizado", diz Vázquez, que está escalando o elenco. "Precisamos de bons atores que topem fazer cenas de escatologia, espancamento e estupro." A estréia será em março de 2006.


@ - bergamo@folhasp.com.br

COM JOÃO LUIZ VIEIRA E DANIEL BERGAMASCO


 Escrito por Laerte Késsimos às 13h14
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